Em 2015 os 193 Estados-membros da Organização das Nações Unidas (ONU) assumiram um compromisso global que pode transformar o mundo. Os chefes de Estado adotaram oficialmente a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, na qual constam os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

A companhia KHAOS Cênica encarando seu trabalho diante da perspectiva da arte como a crônica de seu tempo, buscou, sempre, discutir as problemáticas contemporâneas. Logo, não foi surpresa ao ver que, dentro da construção democráticas dos ODS, nossos trabalhos dialogavam com diversos objetivos, ao mesmo tempo que estudá-los possibilitou que nossa construção criativa avançasse mais ainda ao encontro da responsabilidade social.

Conheça os objetivos presentes nas proposições e práticas da Companhia KHAOS Cênica:

A ótica sob a qual compreendemos os nossos trabalhos (e por consequências lançamos nossas proposições) é de uma perspectiva freiriana. Esta premissa estabelece que cada indivíduo é agente de sua própria libertação à medida em que constrói conhecimento. Este pensamento ultrapassa o ensino formal e coresponsabiliza a sociedade nos processos de educação.

Pelo caráter fluido e interdisciplinar a cultura permite um diálogo orgânico na construção do conhecimento para uma educação libertária e, consciente desta responsabilidade, cabe aos artistas a tomada de posicionamento diante de seus trabalhos.

Portanto, assegurar uma vida saudável e o bem-estar social está presente nos trabalhos da companhia, seja no discurso de seus espetáculos, seja nas práticas de oficinas e workshops que possibilitam a promoção de saúde, autoestima e convívio social, tão importantes para o bem-estar de todas faixas etárias.

Ao mesmo tempo que os espetáculos e oficinas da KHAOS Cênica tratam de questões de ciência, biologia, filosofia, física, história, literatura e, obviamente, artes, assumimos a responsabilidade social de propiciar uma educação de qualidade além do espaço formal, na construção de cidadania, urbanidade e liberdade.

A discussão de diferentes temáticas pela Companhia, além do diálogo direto com escolas, fundações e espaços de educação, tem promovido a reflexão em toda rede envolvida no ensino, desde alunos até pais e professores, ampliando os horizontes metodológicos e permitindo que possamos contribuir para diminuir a disparidades de conhecimento.

A Companhia surgiu com seu primeiro espetáculo a partir de uma provocação sobre empoderamento feminino. Nosso primeiro espetáculo, intitulado “Sereia, Bailiarina das Águas”, foi uma montagem de dança que colocava o protagonismo nas mulheres e partir disso, discutia sua representação metafísica dialogando com o sincretismo religioso. Desde então a KHAOS Cênica tem incorporado a questões sobre gênero em seus trabalhos de forma natural e, muitas vezes, lúdica, como pauta necessária para a construção de igualdades. O espetáculo de dança “Rubro-Almodóvar”, o espetáculo infantil “Conta-Gota, Histórias D’Água”, assim como o espetáculo adulto “Sr. Clandestino” dedicam-se a ponderar sobre o tema, alguns de forma mais constante e explícita, outros inclusivos na trama.

Recentemente a Companhia, através de seu trabalho digital “Terra Mulher” coloca o protagonismo sobre o tema aliando as questões ambientais.

Entretanto, o trabalho da KHAOS não pretende se resumir ao universo discursivo plástico e/ou simbólico. A Companhia tem como cofundadora uma mulher, Lauren Hartz, que exerce busca colocar espaço para outras mulheres atuarem em frentes de trabalho dentro dos espetáculos e produções.

A construção ética dos trabalhos da KHAOS nos fez sempre compreender que era necessário trilhar caminhos que buscassem uma sustentabilidade ambiental. Logo, nossos processos foram sempre de consumo e produção responsáveis com a utilização de materiais reciclados. Hoje 50% dos materiais utilizados pela companhia em suas cenografias, vem do aproveitamento de materiais.

Em 2018 começamos a explicitar esta bandeira para cena. Nosso discurso ecológico já havia aparecido em outros trabalhos, mas nunca protagonizado como quando montamos o espetáculo de teatro de bonecos: “Conta Gota, Histórias D’Água”. A questão já nos era cara, mas levou tempo (e muito estudo) para que pudéssemos trazer isto para o público de forma lúdica, despido dos didatismos enfadonhos tão comuns as propostas do gênero. Desta forma explicitamos nossa preocupação com a vida na água, água potável e saneamento, vida terrestre a partir de uma fábula contemporânea, divertida que atua de forma educativa contra a mudança global do clima.

A discussão sobre trabalho, crescimento econômico e redução de desigualdades estão presentes nos trabalhos da KHAOS. Desde espetáculos de dança como “Horizonte de Neon” (que estabelece uma reflexão diante da exploração tecnológica), até o teatro infantil de bonecos com “Conta Gota, Histórias D’Água” (no qual, de forma lúdica, situações de assédio moral são apresentadas e superadas) e o espetáculo de rua “Sr. Clandestino” (que reviva o sentido de classe e lutas por melhores condições de trabalho) tem possibilitado a reflexão, junto com seu público, destas relações nocivas que geram pobreza e servidão. Contudo, a provocação da KHAOS Cênica se dá, também não se limita ao discurso estético.  A Companhia é responsável por estabelecer uma pequena rede de trabalho entre seus artistas e técnicos que prioriza uma relação de trabalho fraterna, um diálogo horizontal e a qualificação de seus parceiros. O trabalho de jovens profissionais, a contratação de pequenos prestadores de serviços e de trabalhadores locais como ações de fortalecimento a economia local compreendem mais de 90% de toda mão de obra presente nas fichas técnicas de seus espetáculos. Temos a média de constituição de 25 trabalhos diretos por espetáculo e 75 indiretos. Curiosamente, acabamos criando laços com os profissionais envolvidos que ultrapassam as relações profissionais e transformam-se em parcerias de vida.

Além disso, a Companhia KHAOS Cênica, assume seu papel na perspectiva de inovação e infraestrutura de seu microcosmo, a partir de suas construções artísticas promover novas técnicas, capacitações e formas de atuações do setor, incorporando parcerias de inúmeras áreas como eletrônica, programação, logística, comunicação, entre outros.

Nossas ações buscam a inclusão social tanto a partir de nossas práticas estéticas-discursivas em nossos trabalhos, quanto no acesso democrático em apresentações de rua e espaços alternativos, como proposição de redução de desigualdades, promoção da experiência estética e da comunhão democrática através do acesso pleno aos produtos culturais.

A prática artística, segundo o cantor e compositor Chico César, transforma o espaço urbano, que antes era impessoal e sem empatia identitária, em espaços de afeto. Mais do que mero sentimento (que poderia ser subestimado por um olhar mais analítico) transformar um lugar em espaço de afetos é trazer-lhe memória, identidade, constituídos espaços acessíveis, reconhecendo e salvaguardando o patrimônio local. Constituindo espaços sustentáveis.

Neste contexto há uma relação com o conceito de “Não-Lugares”, do antropólogo Marc Augé. Nele, Augé apresenta que o espaço de grande trânsito, cuja aceleração impede as relações interpessoais e de construção de identidade são espaços de “Não-Lugares”, pois é um lugar sem importância afetiva, emocional, identitária e, por consequência, social.

Diante deste paradigma, levando em conta a perspectiva de César e Augé, a Companhia KHAOS Cênica tem atuado buscando resgatar e (re)significar espaços públicos, a partir de suas apresentações em praças, parques e outros espaços de forma a estabelecer sentido e afeto destes espaços com suas comunidades. Esta escolha de apresentar nestes espaços não é ocasional, mas um arbítrio de construção política, de pensar o espaço urbano como uma responsabilidade de formação de cidadania e sociedade.

Esta é a nossa forma de almejar assentamentos humanos como inclusivos, seguros e resilientes.

O espetáculo adulto “Sr. Clandestino” traz para cena uma série de discussões sobre a sociedade atual. De humor ácido e caráter existencialista o espetáculo pondera sobre as instituições e sua eficácia em busca de uma relação capilar da sociedade além de questionar o papel individual do cidadão (espectador do espetáculo) na manutenção da paz em uma sociedade mais justa. Desta forma, através do espetáculo “Sr. Clandestino”, a Companhia KHAOS Cênica busca a provocar a reflexão sobre a responsabilidade institucional, social, inclusiva, e pacífica em todos os níveis.

© 2014 by Denisson Beretta Gargione

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